Lilian Aligleri

Lilian Aligleri - autora de "Gestão Socioambiental - Responsabilidade e Sustentabilidade do Negócio, pela Editora Atlas.

Fazer negócios, respeitar o meio ambiente e a sociedade, e ainda ter bons lucros. Parece impossível visualizar esse cenário há algumas décadas. No entanto, o que parecia distante da realidade de todas ou da maioria das empresas, se solidifica cada vez mais e a questão socioambiental está deixando de ser coadjuvante para se tornar ferramenta de gestão estratégica.

O livro “Gestão Socioambiental – Responsabilidade e Sustentabilidade do Negócio”, de autoria dos professores Isak Kruglianksas (FEA-USP), Lilian Aligleri (PUC-PR) e Luiz Antonio Aligleri (UEL) discute a fundo a questão, e apresenta as justificativas do envolvimento das empresas com o aspecto socioambiental para fins de gerenciamento e como estratégia. Além disso, aponta práticas de responsabilidade socioambiental aplicáveis nas empresas, em seus vários departamentos (Recursos Humanos, Marketing, Produção, Finanças e Varejo). O destaque fica por conta do capítulo sobre práticas socioambientais responsáveis em propriedades rurais.

Alguns dias antes do lançamento do livro, a professora Lilian Aligleri me concedeu uma entrevista exclusiva para falar sobre Responsabilidade Socioambiental. Na época, eu estagiava no Instituto Brasileiro de Florestas, que promoveu uma honrosa ação de doação de mudas de árvores, durante o coquetel de lançamento da obra.

Confira trechos da entrevista:

Maurício Paniza (MP): A responsabilidade socioambiental é um assunto recente e pouco compreendido. Mesmo assim, em meados dos anos 2000, já pode ser observado no seu currículo um envolvimento com a responsabilidade socioambiental. Poderia me falar um pouco disso e da sua relação com a Administração?

Lilian Aligleri (LA): A minha veia socioambiental teve início a partir da minha participação na Federação dos Bandeirantes do Brasil, uma associação que surgiu na Inglaterra em 1909 e que tem por princípios: O respeito ao próximo, ao outro e a inserção do indivíduo na sociedade. A minha participação nesse projeto foi crucial para o meu envolvimento com responsabilidade socioambiental e tive ainda, a oportunidade de atuar como coordenadora de um grupo de crianças do movimento Bandeirante aqui em Londrina até os meus 21 anos, momento em que precisei me desligar devido à falta de espaço na agenda. A minha formação em Administração às vezes é confrontada com a questão socioambiental, porque o modelo de gestão da maioria das empresas hoje, infelizmente, ainda não prioriza as questões ambientais e sociais. Mas não podemos nos esquecer de que a Administração é uma ciência social aplicada e por isso, deve atender também os interesses da sociedade. E que bom que a sociedade e o meio ambiente ganham de alguma forma com a atuação das empresas hoje, porque há alguns anos, a realidade era outra.

MP: Quais os benefícios, além dos ambientais, que você consegue ver a partir de empresas que promovem o plantio de árvores e a recuperação de matas nativas?

LA: Plantar árvores é um resgate do ser humano à Terra, a nossa própria natureza. Hoje, a sociedade dispõe abundantemente de tecnologia e informação, no entanto, esquece de que nós vivemos em um ambiente natural. E essa ação, esse “resgatar” o homem à natureza abrange uma ideia de interconexão, ou seja, nós dependemos exclusivamente dos recursos naturais para a nossa sobrevivência. E isso é muito forte. Quando nos relacionamos com um rio e ele é poluído por dejetos de alguma empresa, nós sofreremos as conseqüências dessa tragédia ambiental e tais não vão acontecer apenas em nível ambiental, vai afetar o social e o econômico. A simples análise das tragédias ambientais já demonstra que plantar árvores traz benefícios além dos ambientais.

 

MP: Há atualmente várias denominações que se referem às questões socioambientais: Responsabilidade social, Responsabilidade socioambiental, Gestão Social, Cidadania Corporativa, Sustentabilidade, e etc. Qual seria o termo mais abrangente e adequado para a realidade de hoje?

LA: Hoje, o conceito mais abrangente é o de sustentabilidade porque envolve o tripé ambiental-econômico-social. Os termos responsabilidade social ou responsabilidade socioambiental terão o seu uso reduzido porque indicam uma idéia de obrigação e hoje, questões socioambientais não devem ser analisadas como tal, mas como necessidade de sobrevivência. No entanto, ainda estamos a anos-luz do verdadeiro sentido da sustentabilidade porque ainda estamos ‘engatinhando’ no que diz respeito ao desenvolvimento de conhecimentos em sustentabilidade. Por exemplo, a utilização do alumínio é combatida por várias organizações devido à quantidade de água necessária para a sua produção, mas pouca gente sabe que cerca de 98% das latinhas de alumínio são recicladas. Por outro lado, quem garante que as outras opções de embalagem não poderão trazer conseqüências piores sobre o meio ambiente do que a utilização das latinhas de alumínio? Isso é apenas um exemplo de que ainda temos muito a fazer para nos tornar uma sociedade sustentável.

MP: A agricultura é uma atividade econômica extremamente importante ao desenvolvimento do nosso país. Como situá-la no contexto da sustentabilidade?

 L.A: Infelizmente, a linguagem do ser humano é individualista e está relacionada aos ganhos e perdas, ou seja, eu só faço algo para ganhar algo em troca. Há um confronto entre a questão da educação e as questões legais. O nível de significação de uma árvore para uma criança e para nossos avós, geralmente é diferente porque os nossos avós aprenderam a derrubar as árvores para o desenvolvimento, já uma criança recebe uma educação que ensina a perceber a árvore e a sua importância para o entorno. Mas na atividade agrícola, a motivação principal ainda são as questões legais, que afetam o lucro diretamente.. Eu acredito que a floresta só vai ficar em pé quando valer mais do que a floresta derrubada. Vejo que a nova geração de proprietários rurais já começa a enxergar essa realidade.

MP: O seu trabalho tem foco na relação entre as empresas e a sustentabilidade. Várias dessas empresas investem em reflorestamento e recuperação de áreas verdes degradadas. Uma empresa que planta árvores pode ser considerada sustentável?

 LA: Plantar árvores é uma atitude ambiental louvável e um ótimo começo para as empresas que tenham interesse em adaptar um modelo de gestão ambientalmente correto e é melhor que as empresas façam algo pelo meio ambiente. No entanto, somente essa ação, realizada de forma pontual, não garante uma visibilidade de empresa socioambientalmente correta. É necessário adaptar os seus processos produtivos e criar formas de minimizar seus impactos sobre o meio ambiente. Uma empresa não pode ser considerada sustentável apenas por plantar árvores. Não adianta uma empresa financiar o plantio de árvores, mas continuar a ter atitudes ambientalmente incorretas. A sociedade entende que a sustentabilidade está ligada apenas a questões ambientais por ter uma visão míope da sustentabilidade, ou seja, por falta de conhecimento e informação sobre o assunto.

MP: Nos dias de hoje, é possível separar o econômico do ambiental e do social?

 LA: Não. Como eu disse anteriormente, o homem está ligado a um contexto natural, ou seja, os diferentes aspectos estão interligados. Eu penso em um exemplo prático: Em uma comunidade em que as pessoas possuem uma renda muito baixa, dificilmente terão acesso a uma educação de qualidade e jogarão o seu lixo em qualquer lugar, criando esgotos a céu aberto que, consequentemente, trarão doenças para as pessoas que moram ali. Esse exemplo nos mostra um problema ambiental – o lixo e outro social – proliferação de doenças em decorrência da questão ambiental. Por outro lado, as empresas dependem do econômico, mas esse está ligado ao ambiental e social. Outro exemplo é o aquecimento global e a agricultura em que as questões climáticas – ambientais, afetam o rendimento das propriedades rurais, que afetam os preços dos alimentos que chegam ao consumidor final. Um aspecto nutre o outro.

MP: Quais as principais barreiras que impedem a causa ambiental de alcançar maior sucesso no Brasil?

 LA: A falta de acesso a educação e a visão do lucro a qualquer custo. A maioria dos empresários vê a questão ambiental como custo e não como investimento. E essas são barreiras que foram construídas historicamente e culturalmente. As pessoas e empresas precisam sair de uma visão conveniente da questão ambiental para uma visão de convicção. Eu observo uma diferença de visão da questão ambiental na Europa, por exemplo, que já sente os efeitos negativos dos impactos ambientais forçando as pessoas e empresas a mudarem seus comportamentos em relação ao meio ambiente.

MP: Falando de terceiro setor na área ambiental. Qual o panorama que você observa dessas organizações no Brasil?

 LA: O terceiro setor evoluiu muito no Brasil e dispõe de tecnologia e recursos necessários para impactar a sociedade, mas ainda falta uma maior aproximação entre o terceiro setor e as empresas. E quando falamos em ONG’s ambientais, o radicalismo para com as empresas é muito grande. Eu defendo a idéia de que as ONG’s ambientais devem se colocar no lugar dos empresários e oferecer auxílio para que eles possam se tornar parceiros estratégicos da questão ambiental. O êxito do terceiro setor no Brasil depende muito da sinergia entre os diversos setores da economia.

LILIAN ALIGLERI é graduada em Administração pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Gestão de Negócios pela Universidade Estadual de Londrina e cursa o doutorado em Administração da Universidade de São Paulo. É professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Faculdade Paranaense, e vencedora do Prêmio Ethos Valor 2008 na categoria Artigo de Pesquisa.

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