Pescador não vende `segredo da lagosta´  

Reginaldo José da Silva, o popular Inho, é um dos diversos pescadores que existem no litoral norte do Estado e seria um anônimo a mais se não tivesse enjeitado dois milhões de dólares ofertados por uma empresa canadense, que interessou-se em saber, detalhadamente, sobre o método que ele emprega para criar lagostas e cavalos- marinhos em cativeiro. “Recusei porque, aqui, eu tenho plena liberdade e existe sol o ano inteiro. Lá, só tem gelo e eu estaria, além de subjugado, fora da minha terra”, explica o homem do mar, na maior simplicidade. Esta é a terceira oferta tentadora feita a ele, desde 1984, quando iniciou a sua criação doméstica de lagostas.

As experiências de Inho passaram a interessar empresas de pesca de diversos países do mundo depois que ele obteve sucesso numa proporção de 95% com a criação de lagostas em cativeiro. A mesma proporção ele atingiu com o cavalo-marinho. Estes, são dois animais aquáticos que, fora do mar, reproduzem com muita raridade, daí o enigma que, atualmente, desafia a inteligência dos cientistas. Inho é um simples pescador, que nasceu e mora em Baía da Traição, a 78 Km de João Pessoa.

Ele não é cientista, nem se considera assim. Apenas se autodefine como um pescador experiente, que desde criança observa, com muita atenção, as coisas do mar. Daí porque, de alguns anos para cá, ele resolveu criar lagostas das espécies Cabo Verde, Laevecauda e Rock Lobster em tanques de água salgada construídos no quintal da casa de seu pai, para negociá-las, justamente, no período em que o Ibama proíbe a pesca do crustáceo, que vai de janeiro a julho de cada ano.

De quebra, ele também consegue criar cavalos-marinhos pardos e vermelhos, devolvendo ao mar filhotes sadios que, em circunstâncias naturais morreriam ou seriam devorados por predadores. A mesma coisa ocorreria com a lagosta. No mar, tanto as lagostas quanto os cavalos-marinhos sobrevivem de dez a vinte por cento em cada desova. Inho diz que obtém um percentual de 95%, usando uma ração especial, cujo teor só ele sabe. O pescador também guarda segredo sobre o controle da água do mar nos tanques de criação.

“Já passei por muitas experiências engraçadas. Uma delas foi a dos técnicos do Ministério da Agricultura, que vieram aqui e fizeram uma verdadeira sabatina comigo, talvez pensando eles que eu revelaria uma parte ou o segredo total do meu método de criação. Depois, foram uns gringos, que me fizeram propostas tentadoras mas, primeiro, queriam se apossar do meu segredo”, afirma Inho. Ele garante que levará para o túmulo a lição que aprendeu com o mar, se não conseguir fechar um negócio vantajoso que permita a ele permanecer na terra onde nasceu.

A National Cannadien Corporation, uma empresa pesqueira de Otawa e situada entre as maiores do mundo, fez proposta tentadora a Inho, segundo ele mesmo revela. Lhe daria dois milhões de dólares em dinheiro e participação nos lucros da organização, moradia de primeiro mundo no Canadá, vantagens educacionais para os filhos e outras coisas. Inho jura que rejeitou tudo, por não querer mudar-se de Baía da Traição, para aventurar-se em terra estranha. “Se esta oferta valesse para o Brasil, eu a teria aceito na hora”.

Atualmente, Inho luta para conseguir uma licença do governo federal, para exportar cavalos-marinhos e lagostas criados em cativeiro. Uma empresa chinesa já o convidou a fazer a primeira experiência exportadora e, de acordo com Inho, se responsabilizou em adquirir toda a quantidade que for produzida. “Isto representa mais empregos para Baía da Traição, cuja pesca está em colapso”, compara.

Outra empresa pesqueira norte-americana quer comprar cavalos marinhos vivos. Já as lagostas vivas interessam aos franceses, americanos e italianos. Inho diz que um casal de lagostas da espécie Cabo Verde consegue uma ovulação de cerca de um milhão de filhotes. Os predadores e outras causas naturais liquidam 90% de uma ninhada, quando nascida no mar. Em cativeiro, o índice de sobreviventes atinge de 600 mil a 800 mil filhotes, daí vingando 95%, ou algo em torno de 100 toneladas de lagostas adultas, atualmente vendidas a R$ 80,00 o quilo, para as empresas de processamento industrial. Na forma in natura, a lagosta é vendida a 20 dólares o quilograma.

Do alto de sua simplicidade, o pescador-criador de lagostas se propõe a repovoar o litoral brasileiro com lagostas e cavalos marinhos e a tornar outra vez cheios de peixes e crustáceos os manguezais do Nordeste. “Basta que os homens acreditem em mim e me deixem trabalhar. Será que as experiências feitas aqui, na vista de todos, não são bastante convincentes?”, indaga Inho.

“Se a lagosta voltar a proliferar como antes, tudo vai mudar no litoral norte, principalmente em Baía da Traição”, afirma o comerciante Nivaldo Bezerra Falcão, 42 anos. Nesta pequena cidade litorânea, tudo vive em torno da lagosta. Atualmente, 79 barcos lagosteiros estão ancorados diante da principal praia do município. Este ano, o período da pesca vai de 15 de junho a 31 de dezembro. E a produção esperada é de 50 toneladas, cerca de 8,5 toneladas por mês.

Cada barco é tripulado por cinco homens. Isto quer dizer que, nesta época, o comércio de Baía da Traição recebe uma injeção de recursos razoável. Nivaldo faz cálculos práticos: “A padaria vende mais, o posto de gasolina fatura com a venda de óleo diesel, os mercadinhos vendem o farnel dos pescadores e as lojas de confecções também faturam, sem falar nas casas que são alugadas para abrigar as tripulações de diversos barcos”.

Por causa desses fatores fortes, a lagosta é a moeda mais forte de Baía da Traição, neste período do ano. Significa que, em seis meses, diariamente o comércio está lucrando. Se a lagosta sair do cenário, nem o período de carnaval e verão conseguirá atenuar o prejuízo que o comércio pode registrar. Isto sem falar que Baía da Traição é uma das poucas cidades que tem uma fábrica de gelo, só por causa da lagosta. Os bares e restaurantes também lucram suas partes, quando as tripulações estão em terra.

 
fonte: http://www.auniao.pb.gov.br

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