Por Liana John 

Adeptos de refeições rápidas, à base de frutos, os parentes mais coloridos dos tucanos levantam vôo ainda de papo cheio e cobrem grandes distâncias. Transportam sementes viáveis de um canto para outro e, assim, estabelecem uma ponte aérea vital entre fragmentos florestais isolados, contribuindo para seu enriquecimento e sua restauração

A Mata Atlântica de Nordeste é um “arquipélago” com pequenas ilhas de floresta nativa isoladas por plantações de cana-de-açúcar ou pastagens. A maioria das ilhas tem área inferior a 100 hectares e já perdeu muito de sua biodiversidade original devido ao processo de fragmentação. Para resistir ao tempo, a vegetação remanescente pede providências muito além da simples proteção contra fogo, novos desmates e extrativismo predatório. Pede reposição, enriquecimento, revitalização. E a ajuda não precisa vir obrigatoriamente pela mão do homem. Também pode “cair do céu”, com a colaboração de aves capazes de voar por longas distâncias, estabelecendo uma ponte aérea entre as ilhas e “bombardeando” cada ponto de chegada com sementes “colhidas” nos pontos de partida. Alguns desses mensageiros vitais para a restauração florestal atendem pelo nome comum de araçaris.

 Da mesma família dos tucanos e tucaninhos – Ramphastidae -, os araçaris se alimentam de frutos de palmeiras e de outras árvores altas. Preferem os mais carnosos e ricos em lipídeos (gordura), alguns com mais de 4 cm de diâmetro. Entre as espécies mais consumidas estão os palmitos juçara e açaí (Euterpe edulis e E. oleracae), bacabas (gênero Oenocarpus), figueiras (Ficus), goiabas e araçás (Psidium), becuíbas e ucuúbas (Virola), mandioqueiras (Didymopanax) e carurus (Phytolacca).
O bico grande ajuda as aves a alcançar  e colher os frutos na ponta dos ramos mais finos, em meio ao emaranhado das copas densas e nos cachos das palmeiras. Um golpe vertical de cabeça traz o fruto da ponta do bico ao alcance da língua em forma de pena, adaptada para raspar a polpa – e só a polpa. Para a natureza, essa é a maior vantagem dos araçaris em relação a araras, papagaios e periquitos, amantes dos mesmos frutos: eles não danificam as sementes. Resultado? Elas germinam!

 Das sementes “processadas” por araçaris boa parte é regurgitada quando livre da polpa. Algumas são engolidas junto com o fruto, mas passam incólumes pelo trato digestivo, mantendo a capacidade de germinação. Tem mais: como são irrequietos e não permanecem por muito tempo no mesmo lugar, eles largam as sementes quando já vão longe da árvore-mãe. “Essas aves comem muitos frutos por visita, depois voam a grandes distâncias. A maioria das sementes é regurgitada, ou seja, o embrião não é afetado e a germinação pode até ser acelerada”, comenta o especialista em dispersão de sementes, Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro (SP), e pesquisador visitante na Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA). Com seus hábitos diferenciados, os araçaris cumprem um importante papel como semeadores, aumentando – e muito – as chances de a mata se renovar com a necessária diversidade.

 “Existem outros dispersores grandes, como jacus e jacutingas (gêneros Penelope e Pipile), mas estes ficam restritos a um mesmo fragmento, enquanto os araçaris voam 500 metros, ou até mais de 1 km, sobre canaviais ou pastagens, migrando entre um fragmento e outro”, complementa a ornitóloga Sônia Roda, do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), com sede em Recife (PE). “E o mais interessante é que, ao migrar de um fragmento mais rico para uma capoeira ou mata secundária degradada, os araçaris levam consigo as sementes de árvores da mata primária, da mata madura. Ou seja, eles não apenas mantêm as ilhas, garantindo a renovação natural, eles as enriquecem”.

 Mais ainda? A diversidade do plantio promovido pelos araçaris não é só de espécies. É também genética. As plantas-filhas de uma ucuúba-mãe, por exemplo, podem ser semeadas num outro fragmento florestal ao lado de uma ucuubeira da mesma espécie, mas sem qualquer parentesco direto. Essa “misturança” – ou o “fluxo gênico entre as populações das plantas”, como preferem os cientistas – contribui para tornar as ilhas de mata mais equilibradas e mais saudáveis, em melhor condição para resistir ao processo de degradação decorrente da fragmentação. Vale lembrar que, mesmo em fragmentos protegidos, sempre ocorre algum tipo de degradação quando o trecho de floresta fica na vizinhança de rodovias, lavouras ou cidades, como conseqüência de poluição, acidentes, fogo, excesso de vento, alterações do microclima ou devido ao próprio isolamento.

Ser o reverso do homem, no entanto, não garante às aves o direito de voarem impunes. Em seu paciente e contínuo trabalho de restauradores, os araçaris circulam descuidados por sua “ponte aérea”, em duplas, em trios ou em pequenos grupos, todos barulhentos, sempre. As vozes de estalidos inconfundíveis alertam caçadores ilegais, denunciando sua localização.

 Na Amazônia, o consumo de araçaris, saripocas e tucanos é freqüente, dentro ou fora de reservas extrativistas, sobretudo em áreas de floresta aberta, buritizais e palmais, onde a mira é mais fácil. “Na Mata Atlântica de Sudeste, nas baixadas, em abril e maio, os araçaris acompanhavam a frutificação dos palmitos-juçara, subindo depois a serra, atrás dos frutos maduros. E os caçadores se reuniam para matar a bicharada. Agora, eles praticamente desapareceram no litoral. Só ocorrem em alguns trechos escondidos, nas encostas, os quais prefiro nem divulgar”, comenta Herculano Alvarenga, médico e ornitólogo, fundador e diretor do Museu de História Natural de Taubaté (SP). Há pelo menos 40 anos, ele observa aves no litoral norte de São Paulo e credita o desaparecimento dos araçaris tanto à ação dos caçadores como à destruição do hábitat, decorrente da expansão imobiliária.

 “No Nordeste, para muitos caçadores, araçaris ainda são troféus. Eles consomem a carne e guardam o bico para exibir. Nem sabem direito qual espécie é, mas acham bonito. E não é só para matar a fome, pois o preço pago pela munição muitas vezes é maior do que o preço de um quilo de frango. É aquele orgulho de dizer que entrou na mata e caçou”, relata Sônia Roda, cujo trabalho se concentra no chamado Centro de Endemismo Pernambuco, uma região considerada especialmente rica em biodiversidade. “Investimos nas crianças e jovens, sobretudo as da comunidade próxima à Usina Serra Grande, em Alagoas, sempre muito curiosas. Os mais velhos mantêm arraigado o hábito de caçar”, diz.

“Os araçaris ainda chamam a atenção por seu colorido e são visados pelos traficantes que abastecem o comércio para viveiros. Os filhotes e os jovens são muito “bobos”, fáceis de encontrar e capturar”. As estatísticas da fiscalização confirmam o comentário da ornitóloga pernambucana: nos meses de verão, tempo de reprodução em toda a Mata Atlântica, são freqüentes as apreensões de filhotes de araçaris destinados ao tráfico, nacional e internacional.

Em geral, os pais “revelam” a localização aproximada dos ninhos devido ao já mencionado hábito de “falar” enquanto voam, embora no trato dos filhotes permaneçam silenciosos. Os ninhos são feitos em ocos de árvores, usados ainda para dormir, mesmo fora do período de reprodução. Para as espécies que vivem em grupos, o dormitório costuma ser coletivo e isso pede um oco de certo porte, ainda que cada indivíduo ocupe pouco espaço ao assumir a postura de descanso, com a cauda inteiramente dobrada sobre o corpo e o bico protegido sob uma asa.
Diferentemente dos pica-paus, porém, os araçaris não abrem buracos nos troncos de árvores, e nem conseguem alargar os ocos com a eficiência das araras e dos papagaios. Embora avantajado, seu bico não é tão resistente, nem adaptado para tal função. Essa dependência de ocos naturais, ou feitos por outros animais, torna-se crítica em fragmentos florestais pequenos ou manejados. “A função dos ocos como ninho ou toca é mal compreendida pelos homens e muitas árvores mortas são removidas, como se já não servissem para a natureza”, alerta Herculano Alvarenga. Sônia Roda faz coro com o ornitólogo paulista, considerando a disponibilidade de ocos um fator determinante para a sobrevivência dos araçaris – e de muitas outras aves e mamíferos da Mata Atlântica, igualmente dependentes das velhas árvores para dormir ou abrigar sua prole.

 As fêmeas de araçaris põem 2 a 4 ovos e o tempo de incubação é relativamente curto, entre 15 e 18 dias. O casal se reveza na busca de alimento e na incubação. Tanto o macho como a fêmea trazem comida no papo para a parceira ou o parceiro ocupado com o ninho. Os filhotes nascem nus e cegos, mas em um mês já estão fora do ninho, deixando para trás um montinho de sementes cuspidas. Em 10 dias, já conseguem se alimentar por conta própria, assumindo a “profissão” dos pais como semeadores de Mata Atlântica. Desde que, é claro, o homem não se interponha em seu caminho, interrompendo as estratégias de auto-restauração da natureza…

 Dispersores dispersos

Vinte espécies da família Ramphastidae ocorrem em território brasileiro: 4 tucanos, 2 tucaninhos, 3 saripocas e 11 araçaris. À primeira vista, o que diferencia os tucanos (gênero Ramphastus) dos tucaninhos (gênero Aulacorhynchus) é o tamanho: os primeiros são os maiores da família – de 42 a 61 cm – e os segundos, os menores – com 33 cm, em média. Os 4 tucanos também podem ser reconhecidos por seu invariável “casaco” preto, enquanto os 2 tucaninhos se “vestem” sempre de verde, frente e verso.  A criatividade no colorido fica para os bicos e os detalhes das faces e das pontas das penas.

 Já entre saripocas (gênero Selenidera) e araçaris (gêneros Selenidera e Pteroglossus) há mais semelhanças, ao menos nos tamanhos – entre 35 e 45 cm – e nas cores – verde, amarelo, vermelho, azul, marrom e preto. As variações de plumagem ficam por conta da seqüência e da posição das cores, em faixas contrastantes no peito, no papo e no dorso, e dos detalhes cuidadosamente desenhados nos bicos. Em alguns casos, as diferenças são mais evidentes entre machos e fêmeas da mesma espécie do que entre machos de espécies diversas…

 Em comum, todas as aves da família Ramphastidae têm a característica de apreciar frutas e dispersar sementes, contribuindo para o enriquecimento das matas onde vivem por transportar tais sementes para bem longe das plantas-mães. Tucanos incluem invertebrados e filhotes de outras aves em sua dieta com maior freqüência, enquanto os demais consomem invertebrados apenas eventualmente.

 Todo tipo de floresta, de Norte a Sul
As 11 espécies de araçaris nativas do Brasil se distribuem tanto pela Amazônia como pelos remanescentes florestais da Mata Atlântica de Sudeste e de Nordeste. E pelo menos 3 delas alcançam também as matas de interior, no Pantanal e, mais ao Sul, na fronteira do Paraguai com os Estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul. São elas:
Araçari-negro (Selenidera culik)

 Habita tanto matas de galeria como florestas primárias e secundárias ao Norte do rio Amazonas. Prefere comer – e plantar – bacaba (Oenocarpus bacaba) e embaúbas (gênero Cecropia). Tem 34 cm.

 Araçari-miudinho (Pteroglossus viridis)
Ocupa florestas de terra firme, primárias ou secundárias e até plantações, na calha Norte do Amazonas e nos Estados do Amapá e Roraima, além das Guianas. Costuma ser visto na companhia de gralhões (Ibycter americanus), parentes do caracará. Mede até 39 cm.

 Araçari-de-pescoço-vermelho
(Pteroglossus bitorquatus) – Ocorre ao Sul do rio Amazonas, com certa preferência por áreas mais úmidas: matas de galeria, várzeas e florestas de bambu, embora também circule pela terra-firme. Tem 36 cm.

 Araçari-de-bico-marfim

 (Pteroglossus azara) – Vive nas florestas do Amazonas e do Acre, assim como nos países vizinhos. Também prefere matas ribeirinhas, várzeas e florestas de bambu. O tamanho varia bastante, de região para região e conforme a subespécie: de 36 a 45 cm.

 Araçari-de-cinta-dupla
(Pteroglossus pluricinctus) – Distribui-se ao longo das fronteiras do Brasil com Venezuela, Colômbia e Peru, nas matas mais úmidas, ocupando preferencialmente a copa das árvores. Mede de 43 a 46 cm.

 Araçari-mulato

 (Pteroglossus beauharnaesii) – Única espécie conhecida com penas encaracoladas no alto da cabeça. Habita florestas de terra firme primárias ou secundárias e até capoeiras, na Amazônia (Acre, Rondônia, Amazonas, Sul do Pará e Norte do Mato Grosso). Tem até 46 cm.

 Araçari-letrado
(Pteroglossus inscriptus) – Ocorre tanto em florestas secas como em várzeas e igapós, buritizais, matas secundárias e até em plantações, ao longo da bacia Amazônica, ao Norte e ao Sul do rio. E também tem uma população isolada, na Mata Atlântica de Nordeste, do Norte da Bahia a Pernambuco. Existem pelo menos 2 subespécies conhecidas. Os tamanhos variam de 33 a 40 cm.

 Araçari-de-bico-branco

(Pteroglossus aracari) – Vive nos fragmentos florestais da Mata Atlântica, tanto de encosta como de baixada, e nas matas de galeria. Circula em grupos grandes e, eventualmente, mistos com os tucanos de bico-preto (Ramphastus vitellinus) e de bico-verde (R. dicolorus). Chega a 46 cm.
Araçari-banana (Pteroglossus bailloni)

 Vários estudiosos resistem à recente inclusão da espécie no gênero Pteroglossus e ainda a consideram como Baillonius. É um dos araçaris mais fáceis de ver, pois circula tanto pelo dossel da mata Atlântica de encosta como pelos ramos mais baixos e mesmo no chão dos fragmentos florestais de baixada e restingas. É um dos grandes semeadores de palmito-juçara (Euterpe edulis), embaúbas (Cecropia spp.), figueiras (família Moraceae) e caneleiras (gêneros Ocotea e Nectandra). Varia de 35 a 39 cm.

 Araçari-poca (Selenidera maculirostris)
Habita a Mata Atlântica de encosta e serrana e as matas de galeria do Brasil oriental. Acompanha a frutificação do palmito-juçara (Euterpe edulis), que inicia na zona costeira e depois “sobe a serra”. Tem 35 cm.
Araçari-castanho
(Pteroglossus castanotis) – Ocupa ambientes florestais variados, de buritizais a mata densa de terra-firme, cerrados e áreas de vegetação alterada. Além de consumir frutos, preda filhotes de japins (gênero Cacicus). Mede de 43 a 47 cm.

 Comedores de araçá
Araçari-poca, saripoca. Para quem ouve, o segundo nome soa claramente como uma corruptela do primeiro. Araçari, em tupi-guarani, é ave que come araçá, frutinha comum em nossas matas e cerrados (gênero Psidium). Poca significa estouro ou estalido e, no caso, corresponde ao som rouco e gutural emitido por essas aves.

 No Brasil, são conhecidas 3 espécies aparentadas com araçaris e chamadas vulgarmente de saripocas:

 Saripoca-de-coleira
(Selenidera reinwardtii) – Habita matas de várzea e terra firme do Sudoeste da Amazônia. São conhecidas duas subespécies. Mede 34 cm.

 Saripoca-de-bico-castanho
(Selenidera nattereri) – Vive em matas abertas de solos arenosos e florestas de terra firme no Noroeste do Estado do Amazonas e em Roraima. Tem 32 cm.

 Saripoca-de-gould
(Selenidera gouldii) – Ocorre nas bacias do Tapajós e do Xingu, no Baixo Amazonas e em matas litorâneas, buritizais e palmais do Nordeste do Pará. Tem 33 cm.i

fonte: Envolverde/Revista Terra da Gente

Obs: Esta reportagem, assinada pela jornalista Liana John, da Revista Terra da Gente, foi a vencedora do 9° Prêmio de Reportagem sobre Biodiversidade da Mata Atlântica, oferecido pelas Ongs SOS Mata Atlântica e Consernação Internacional. A autora gentilmente cedeu o direito para que a Envolverde pudesse levar este excelente material de jornalismo ambiental aos seus leitores. Realmente vale a pena ler a matéria e conhecer o excelente trabalho realizado pela equipe da Terra da Gente. (Dal Marcondes)

 

Anúncios