São José do Rio Preto, 13 de abril de 2009

 Allan de Abreu

12:36 – Jovair de Oliveira, 36 anos, sobreviveu 20 safras no corte da cana em Monte Aprazível. Tinha fama de campeão do podão, o facão afiado que corta desde o talo cada vara de cana-de-açúcar. Ninguém podia com Jovair, que nunca cortava menos de 15 toneladas por dia. Chegava a 21, e ganhou até bicicleta da usina como prêmio pela produção. Hoje, três anos depois de abandonar o corte, Jovair mal consegue capinar o quintal de casa. “O ar falta, fico zonzo, a coluna dói, o coração só falta sair pela boca. Parece que vou morrer. Meu filho pequeno dá risada, eu fico com vergonha. Não sei onde foi parar a fama de campeão.” Há poucas semanas o médico de Jovair pediu uma ressonância do seu pulmão. Como o ex-cortador nunca fumou, a suspeita é que, após tantos anos inalando a fuligem da palha da cana queimada, ele tenha desenvolvido irritação no pulmão – não está descartado um tumor.

A dor de Jovair é o resumo do que sentem outros 40 mil cortadores que todos os anos vêm do Nordeste à região ganhar alguns trocados e fazer girar o capital dos usineiros. No meio da cana, tudo conspira contra o cortador. O sol a pino desidrata, e o esforço físico repetitivo causa falta de ar e dores fortes na coluna e nas articulações. Se a dor de Jovair é palpável, a medicina ainda desconhece a fundo os efeitos da jornada da cana na saúde do trabalhador. Mas está bem próxima de conhecer, por meio de um estudo inédito no País financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Um grupo de 50 pesquisadores da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) vai aferir os estragos à saúde provocados pela safra da cana em um grupo de 100 cortadores de cana de Mendonça. De uma simples cãibra ao câncer de pulmão, passando pelo risco de infarto, dores na coluna e estresse. “O estudo é único pela sua amplitude. Até agora, há pesquisas pontuais. Nenhuma abrangeu todo o impacto que a cana provoca na saúde do trabalhador”, diz o pesquisador da Famerp Kazuo Nagamine, um dos coordenadores do projeto.

No Carnaval, os pesquisadores colheram amostras de sangue, muco nasal e aferiram a frequência cardíaca e a capacidade pulmonar. Haverá mais dois testes, durante a safra, na metade do ano, e no fim da colheita, em dezembro. Como padrão comparativo, os mesmos testes serão feitos com os 3,9 mil habitantes de Mendonça. Enquanto isso, ratos de laboratório serão expostos, no período da safra, às mesmas condições ambientais dos cortadores de cana. Inclusive a fuligem, um veneno de ação lenta: pesquisa da Unesp de Rio Preto de 2005 já
apontava compostos cancerígenos do pó da palha queimado, os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs). “Falta conhecer melhor a ação desses compostos no pulmão do trabalhador”, diz Nagamine. Inclusive no pênis, alvo de outra pesquisa da Famerp. A fuligem expõe a realidade da lavoura da cana. De longe, o verde macio do canavial embevece os olhos. Mas basta chegar um pouco mais perto para notar que a cor de um canavial é bem outra. O preto do pó da palha queimada se alastra pelo caule da cana, pela luva, pelo rosto do trabalhador, que quase nunca protege o nariz e a boca da fuligem suspensa no ar. Um risco certo para os pulmões já calejados pelo esforço físico.

“Aquele pó fica no nariz e não sai. Irrita, dá tosse. Chega a sangrar o nariz. Tenho colega que amarra camisa na cara, mas eu não gosto, incomoda. O jeito é se concentrar na cana, e tocar em frente”, afirma o cortador Rubens Carvalho da Maceno, 41 anos, maranhense na segunda safra da cana em Macaubal. O câncer de pulmão tem uma peculiaridade em relação aos demais: os fatores ambientais preponderam em relação à herança genética. O cigarro é o grande vilão comum de tumores pulmonares, de acordo com o chefe do departamento de tórax do Hospital do Câncer de Barretos, José Elias Miziara. Mas nos últimos anos, o hospital tem atendido vários casos de cortadores de cana que nunca fumaram, com tumores no pulmão. Procurada pelo Diário, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) informou por meio de nota que só vai se manifestar sobre a pesquisa após a conclusão dos estudos. 

Esteves sofreu com pressão alta e desmaios enquanto aplicava o glifosato no canavial

Esteves sofreu com pressão alta e desmaios enquanto aplicava o glifosato no canavial

Na cana, herbicida também prejudica saúde

Não é só o corte da cana que prejudica a saúde do trabalhador. O ciclo produtivo do canavial atrai doença até mesmo na lida com o mato que invade os eitos da cana. Poucas semanas antes do corte, entram em ação os matadores de mato. Com uma bomba de 16 litros de herbicida nas costas, varam o dia no despejo de um líquido que, em dois dias, mata tudo o que for verde, com exceção da cana. A palha que sobra é combustão para as queimadas, dias depois. Em Monte Aprazível, Celes Esteves, 51 anos, deixou de aplicar herbicina na cana há seis meses. Não volta “nem por R$ 3 mil de salário” depois de quatro anos de contrato com a usina Moreno. Antes, trabalhou 31 anos na ordenha de leite. “Minha saúde sempre foi boa, até eu entrar no herbicida”, diz. Celes passou maus bocados com o glifosato, o principal herbicida da cana, comercializado pela multinacional Monsanto com o nome Roundup. Sentia coceiras na pele, que evoluíram para tontura, pressão alta e desmaios. Celes usava equipamentos de proteção, mas relata a falta de cuidados básicos com a segurança: o contato do produto com a moringa d’água e apenas duas trocas da roupa, lavadas em casa. Depois de ficar doente, foi demitido.

Gilmar Inácio, presidente do sindicato dos trabalhadores em Monte

Gilmar Inácio, presidente do sindicato dos trabalhadores em Monte

Antonio César Trevisan, que trabalha para a Moreno, sente constantes alergias no nariz e dores de cabeça. Segundo ele, quando chove o veneno penetra na roupa e atinge a pele, causando coceira. “Tem colega que leva remédio para a pressão na
roça. Eles querem que a gente morra trabalhando”, afirma Trevisan, que já pediu para ser demitido. “Não aguento mais.” As reclamações dos trabalhadores de Monte Aprazível têm respaldo na medicina. Segundo o toxicologista Igor Vassilief, o contato contínuo com o glifosato pode causar visão turva, problemas respiratórios, variação da pressão corporal, desmaios e insuficiência renal. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Monte Aprazível, Gilmar Cândido Inácio, denunciou a falta de cuidados no uso do Roundup à Subdelegacia Regional do Trabalho em Rio Preto. O subdelegado Robério Cafagni pretende intensificar a fiscalização do uso de herbicidas nas lavouras da cana na região. “Temos recebido muitas reclamações.”

Males da fuligem investigados

Há cinco anos as estatísticas intrigam o médico urologista rio-pretense JoséCarlos Mesquita: por que a incidência de câncer no pênis é 85% maior nos cortadores de cana do que entre os homens da zona urbana, do total de pacientes tratados na rede pública de saúde em Rio Preto? E por que havia tumores no órgão genital em pacientes nas faixas dos 20 aos 40 anos, contrariando a literatura médica, que aponta maior incidência de câncer no pênis nos homens na quinta e sexta décadas de vida? A suspeita inicial recaiu sobre os agrotóxicos, mas foi logo descartada. Só poderia ser a fuligem. Mesquita e mais nove médicos da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) iniciaram então, há dois anos, uma pesquisa para provar essa relação. “Como a pele do pênis é sensível e se irrita com muita facilidade, acreditamos que o contato prolongado com a fuligem da cana
provoque tumores”, disse o médico. Mesquita não quis detalhar o estudo, alegando que a pesquisa ainda não foi concluída, o que deve ocorrer daqui a seis meses, segundo ele. Informa apenas que há “indícios fortes” que conectam a fuligem ao câncer peniano.

Multinacional nega danos

A Monsanto, multinacional que fabrica o Roundup, negou que o produto cause danos à saúde. Em nota, a assessoria da empresa afirma que o Roundup foi testado pelo governo federal brasileiro, pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA). “Nos Estados Unidos e em outros países o glifosato tem uso permitido para jardinagem doméstica, tamanhas suas condições de segurança”, afirma a assessoria. “Estudos de biomonitoramento – avaliações feitas para analisar a exposição humana a substâncias químicas -, demonstraram que o princípio ativo do Roundup, o glifosato (…) não provoca danos à saúde dos trabalhadores, sendo pouco absorvido pelo corpo e eliminado sem alterações.”

A multinacional ressalta que o produto “é o único já utilizado na reserva ecológica de Galápagos e para controle de plantas daninhas em patrimônios da humanidade como Pompeia, na Itália”. A nota termina informando que “não é esperada intoxicação por Roundup ou por outros herbicidas à base de glifosato quando o produto é aplicado de acordo com as recomendações técnicas, segundo as instruções de bula e com o equipamento de proteção individual adequado”. O assessor da usina Moreno Valter Bigi disse que a empresa não tem conhecimento das condições de aplicação do Roundup na unidade de Monte Aprazível. “Vamos apurar e corrigir o que eventualmente estiver incorreto”, afirmou.

Fotos de Rubens Cardia.
Fonte: http://www.diarioweb.com.br/noticias/corpo_noticia.asp?IdCategoria=7&IdNoticia=120280

Caco Araújo

 

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