05 / 02 / 2009

A raiva é uma doença que, para todos os efeitos estatísticos, ainda não tem cura. Mas uma técnica desenvolvida nos Estados Unidos, que salvou um paciente em 2004, conseguiu ser aplicada com sucesso pela primeira vez no Brasil. Ela resultou na sobrevivência do garoto Marciano Menezes da Silva, de 16 anos, que havia sido contaminado após ser mordido por um morcego. A informação foi divulgada originalmente pelo diário “O Globo”.
O sucesso aconteceu no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, ligado à Universidade de Pernambuco, no Recife. O adolescente estava internado desde outubro do ano passado e nesta quarta-feira (4) deve deixar a UTI e passar à enfermaria, onde poderá ter a companhia da família 24 horas por dia. “Achamos que isso será muito bom para ele”, disse ao G1 Gustavo Trindade Filho, coordenador médico da UTI de Doenças Infecciosas do hospital. Para obter o sucesso, o grupo de médicos do qual Trindade faz parte seguiu os passos do americano Rodney Willoughby, dos CDC (Centros de Controle de Doenças), que, em Normalmente, os acometidos por raiva – doença de origem viral transmitida em geral por mordidas de animais – podem ser protegidos profilaticamente, quando tomam vacina e soro logo após o incidente que teria ocasionado a transmissão do vírus. Mas, quando esse sistema não é bem aplicado (como foi o caso de Marciano Menezes), a doença se desenvolve, causando inflamações no cérebro e na medula. Quando isso acontece, a regra geral é que o paciente não sobrevive. Com base em casos documentados em humanos e experimentos em animais, Willoughby desenvolveu um protocolo para tentar salvar os pacientes. Num primeiro momento, ele dava um sedativo forte e um medicamento antiviral. “O sedativo tinha por objetivo, reduzir ao máximo a atividade do cérebro”, conta Trindade. “Já o antiviral servia para ajudar o corpo a combater o vírus no organismo.”

Na paciente tratada por Willoughby em 2004, a estratégia funcionou. O vírus foi eliminado do organismo, mas os testes revelaram que uma substância importante no sistema nervoso, a biopterina, aparecia em baixa quantidade no organismo. O americano então concluiu o tratamento injetando o composto, para que ela tivesse maior chance de recuperação.

Os médicos brasileiros fizeram basicamente a mesma coisa: deram antivirais e sedativos. Após o fim da infecção, despacharam uma amostra do líquido que envolve a medula e o cérebro de Menezes para os EUA, a fim de que se fizesse a medição da presença de biopterina e se decidisse pela dosagem ideal para o adolescente. Feito isso, o tratamento de Menezes foi concluído. A combinação de medicamentos permitiu que o corpo de Menezes vivesse mais e ganhasse mais tempo para eliminar completamente o vírus da raiva do organismo.

Os testes confirmam o sumiço de qualquer traço do patógeno. Resta saber agora as sequelas que serão enfrentadas pelo menino. Como a doença afeta o sistema nervoso, é possível que ele tenha sofrido severos danos. “No lado cognitivo, ele já está dando sinais de recuperação”, diz Trindade, ao contar que ele já responde perguntas simples, que exijam “sim” ou “não”. Mas a preocupação maior é a de recuperação dos movimentos. Ele precisará fazer fisioterapia para ajudar a recuperar o controle dos braços e das pernas. De toda forma, ele agora está livre da doença e fora de perigo.

O caso do menino Marciano é apenas o terceiro a superar a raiva, e o segundo a sobreviver. “Uma das que se livrou do vírus, uma paciente na Colômbia, acabou morrendo por complicações clínicas posteriores”, indica Trindade. Em todos os casos, o protocolo de tratamento criado por Willoughby foi utilizado. Mas isso não quer dizer que ele seja a solução definitiva contra a raiva. Segundo Trindade, foram feitas ao menos 16 tentativas ao redor do mundo, após o sucesso inicial do americano em 2004.

Apenas 3 se livraram do vírus, e 2 sobreviveram. A estatística ainda não permite concluir muita coisa, salvo que há algo que efetivamente dá certo, pelo menos em alguns casos, no protocolo utilizado. “É o melhor que a gente tem hoje”, afirma Trindade. “O que vai vir daqui para a frente, a gente vai aprender, e vai aprender junto”, conclui o médico, dizendo que há ainda um longo caminho adiante para pesquisas e testes até que se possa salvar as vítimas de raiva com maior freqüência e com menos sequelas.

Para todos os efeitos, a raiva ainda é incurável na imensa maioria dos casos.

Fonte: Salvador Nogueira/G1

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