Aos olhos do mergulhador visitante, a beleza do coral-sol, com seus tentáculos amarelos que parecem iluminados, some antes mesmo da segunda sugada de ar no regulador.

Basta lembrar o que os cientistas haviam dito sobre o animal antes de a exploração submarina começar: “Vamos observar uma espécie invasora, que mata os corais que só vivem na costa do Brasil”.

Membros da ONG Terra e Mar – Gilberto Mourão foi quem encontrou o invasor em São Paulo- e pesquisadores do Centro de Biologia Marinha da USP estão desde janeiro convivendo com essa espécie assassina, que pela primeira vez é detectada no país fora do Estado do Rio de Janeiro. Agora é oficial: os invasores estão migrando rumo ao sul.

O coral-sol não é o único estrangeiro em ação em águas nacionais. Levantamento inédito feito pela USP, que será divulgado em outubro, mostra a invasão de pelo menos outras 35 espécies marinhas.

Para ver o belo e assassino coral-sol, a reportagem da Folha, a bordo do barquinho Shark – com o professor aposentado da USP José Carlos de Freitas no comando -, mergulhou no litoral norte (o local exato é segredo para que curiosos não atrapalhem as pesquisas) na quinta-feira.

O inimigo estava lá, no costão rochoso, a profundidades que variam de 50 centímetros a 15 metros. O maior tapete coralino estava sob uma rocha grande, em uma zona que costuma ficar boa parte do tempo na sombra. Sem luz, os tentáculos dos pólipos (os indivíduos das colônias) ficam mais abertos.

O diagnóstico inicial confirma que, só em águas paulistas, essa espécie de coral originária do Indo-Pacífico ocorre em um triângulo de aproximadamente 25 mil metros quadrados.

No Rio, no canal de Ilha Grande, onde o coral é mais abundante, a invasão ocorre ao longo de 25 quilômetros.

Segundo Alberto Lindner, pesquisador do Cebimar e organizador da expedição, o coral-sol (gênero Tubastrea) é uma ameaça “porque ele mata o coral-cérebro” (Mussismilia hispida), uma das espécies que só existe no Brasil.

Registros dessa agressão, que ocorre porque o coral invasor cresce sobre o endêmico e promove a necrose dos indivíduos, foram feitos pela equipe de Joel Creed, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). O grupo estuda a invasão do coral-sol desde 2000.

Outro risco potencial que pode ocorrer, segundo os cientistas, é também altamente impactante para a biodiversidade marinha brasileira. O coral-sol, segundo Lindner, ao ocupar o seu espaço de forma agressiva (ele se reproduz entre 12 e 18 meses, o que é bem rápido para um coral) afugenta os invertebrados marinhos e peixes que já viviam naquele local. ‘Isso pode ter até conseqüências econômicas, dependendo dos animais que são deslocados’, disse o pesquisador da USP.

A chegada do coral-sol, primeiro ao litoral do Rio de Janeiro, provavelmente há quase 20 anos, e agora há menos tempo em São Paulo, não é fruto de uma distribuição aleatória causada pelas correntes marinhas. A culpa, aqui, é dos navios que carregam petróleo.

“É praticamente certo que o transporte desses corais [ao longo do Sudeste] ocorra tanto por plataformas quanto pelos cascos dos petroleiros, que trazem óleo da bacia de Campos para os terminais de Ilha Grande e para o Terminal Marítimo Almirante Barroso, em São Sebastião”, diz Linder.

Relatos científicos, também feitos pela Uerj, mostram que as plataformas “off-shore” da Bacia de Campos, no final dos anos 1980, foram os primeiros pontos de desembarque do coral-sol no Brasil. Essa espécie emigrou do Caribe, onde chegou desde o Oriente nos anos 1940, e se alastrou pela região.

Pela raiz

Migração confirmada, o levantamento científico que teve início no mês passado vai aumentar. Segundo Lindner, expedições serão feitas nas próximas semanas desde a região da ilha Anchieta (Ubatuba) até a Laje de Santos, ao sul.

Lindner defende a criação de uma estratégia de erradicação dos invasores tão logo o mapeamento esteja concluído, para evitar que o coral-sol continue a se espalhar pelo país. No Rio, a Uerj já se prepara para executar um plano radical de extermínio: com o apoio de pescadores de Ilha Grande, os pesquisadores tentarão raspar as colônias das rochas.

(Fonte: Eduardo Geraque / Folha de S.Paulo)

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