Artigo de Sônia Corina Hess *

Há um número crescente de materiais suspeitos de causarem distúrbios na ação de hormônios sexuais e induzirem ao desenvolvimento do câncer. Em mulheres, a exposição a estrógenos (substâncias que imitam a ação do hormônio feminino estrogênio) é o principal fator de risco para o desenvolvimento de endometriose, câncer de mama e útero. Em homens adultos, a exposição a estrógenos resulta em ginecomastia (crescimento das mamas), diminuição da libido, impotência, diminuição dos níveis de andrógeno (hormônio masculino) no sangue, diminuição na contagem de espermatozóides, entre outros agravos à saúde.

Muitos materiais industriais de amplo emprego são apontados na literatura científica como sendo agentes capazes de causar desequilíbrio no sistema hormonal de mamíferos, incluindo os seres humanos, atuando também como agentes carcinogênicos, citando-se como exemplos: ftalatos (componentes de plásticos, cosméticos, etc); alquilfenóis (que fazem parte da composição de detergentes e plásticos); componentes de filtros solares (homosalato (HMS), benzofenona-1 (BP-1), benzofenona-2 (BP-2), benzofenona-3 (BP-3),
3-benzilideno cânfora (3-BC), 4-metil benzilideno cânfora (4-MBC) e 4-metoxicinnamato de 2-etilhexila (OMC)); inseticidas (DDT, dieldrin, quepone – clordecone, endosulfan, metoxiclor, toxafeno, diazinon); herbicidas (linuron, alaclor, atrazina); fungicidas (vinclozolin, procymidona, procloraz); entre outros.

O bisfenol A tem sido uma das substâncias químicas de maior produção ao redor do mundo, e está presente em materiais que fazem parte de latas de conserva, mamadeiras, garrafas de água mineral, canos de PVC, seladores dentários, e muitos outros itens. Mamadeiras comercializadas no Brasil, bem como em quase todos os países, são feitas de policarbonato, um plástico transparente obtido a partir do bisfenol A. Em trabalhos científicos recentes foi descrito que “tendências do adoecimento de seres humanos têm semelhança com os efeitos adversos observados em animais de laboratório expostos a baixas doses de bisfenol A, como o aumento da incidência de – câncer de próstata e mama; – anormalidades uro-genitais em bebês do sexo masculino; – puberdade precoce em meninas; – desordens metabólicas incluindo obesidade e diabetes resistente à insulina (tipo 2); – problemas neuro-sociais, como hiperatividade associada a déficit de atenção e autismo; – além da diminuição da qualidade do sêmen dos homens”. Tais dados científicos levaram o governo do Canadá a proibir a comercialização, a partir de 19 de junho de 2008, de mamadeiras de bebês feitas com policarbonato.

Diante das evidências conclui-se que, entre outras, uma medida que deveria ser adotada visando à proteção da saúde pública seria incluir, na legislação, a obrigatoriedade da avaliação das propriedades hormonais e carcinogênicas de águas de abastecimento e de produtos industriais comercializados no Brasil

(artigo publicado no jornal O Estado de MS em 02/10/2008)

*  Sônia Corina Hess Engenheira química, professora da UFMS

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