Grácia Lopes Lima e Teresa Melo
 
Resumo: A partir de algumas das concepções da Educação e da Comunicação e os efeitos de cada uma delas na vida das pessoas e na configuração da sociedade brasileira, este artigo apresenta de que maneira a Educomunicação é uma possibilidade de construção do sujeito e de sua relação com o meio ambiente.
Palavras-chave: educomunicação, educação ambiental, autoria. 
 
O termo Educomunicação é um neologismo, ou seja, uma palavra nova, fruto da junção de duas outras já conhecidas – Educação e Comunicação. Porque une elementos característicos dessas duas ciências, mas ultrapassa seus limites, a Educomunicação vem sendo apontada como um novo campo do conhecimento.
 
Quais são as novidades dessa proposta? Em que ela se diferencia do já conhecido? O que ela tem a ver com Educação Ambiental? Estas são algumas das perguntas norteadoras deste texto que pretende

 contribuir para que a escola seja um dos espaços possíveis para a sua realização.
 
Para compreender seu conceito convém antes retomar, em separado, algumas das concepções dessas duas ciências e, principalmente, os efeitos de cada uma delas na vida das pessoas e na configuração da sociedade brasileira.
 
Comecemos por Educação, mesmo que de modo sucinto, pensando no contexto histórico, no pano de fundo em que ela se assentou durante muito tempo em nosso país. Usando o mesmo raciocínio que, em geral, adotamos para analisar o rendimento escolar de alunos, vamos considerar as condições em que “cresceu” a população brasileira.
 
De 1500 até hoje, vivemos mais de três séculos sob regime de escravidão e quase quarenta anos governados por ditadores que se revezaram no poder . Isso significa, em breves palavras, que castigos físicos e outras dores, talvez mais agudas que as sentidas no corpo, fizeram parte das nossas aprendizagens.
 
A maior parte da nossa história foi marcada por um modelo cruel e desumano de pensar e de agir. Impossível negar tais reflexos na nossa formação. Isso explica, em grande medida, por exemplo, porque fomos durante tanto tempo – em que pesem os movimentos de resistência que sempre existiram – um povo que soube tão bem agüentar, silenciar, obedecer, consentir. Explica também porque nas relações que estabelecemos nos é tão fácil, em maior ou menor escala, causar sofrimento nos outros e abusar do poder.
 
Sustentados por uma sólida pedagogia , esses valores prevaleceram fora e dentro da escola. Na instituição escolar, em particular, muito se ensinou a submissão e a infração. Andar em fila, atender ao sinal, sentar um atrás do outro – sinônimos de ordem para boa parte dos educadores – nos levaram a associar respeito a obediência de comando, a olhar a nuca dos companheiros, ao invés de nos seus olhos para com eles aprender a conversar sobre o cotidiano e a vida em comum.
 
Provar conhecimento repetindo palavras dos outros, tirar boas notas para ser motivo de orgulho da família, ou por medo de bronca, ou coisa pior, promoveram a aprendizagem da competição, da mentira…
 
Ou seja: descontados esses tempos de agruras, vale dizer que há bem poucos anos é que começamos a construir uma outra história. E por tais motivos, torna-se compreensível que ainda estejamos tão longe do que necessitamos. Muito temos que entender para superar, então, o que ainda nos amarra.
 
Pensemos agora sobre Comunicação Social, ou seja, sobre os meios de comunicação existentes em nosso país, as relações que eles mantêm conosco e vice-versa. Sabemos que sua função não é educar a sociedade, muito menos as pessoas em idade de formação. Porém, observando linguajar, modo de se arrumar, preferências musicais, opiniões defendidas por muitos daqueles que conhecemos ou com quem convivemos, temos que admitir a influência que o rádio, a mídia impressa e a televisão, em especial, exercem sobre todos nós. Podemos afirmar, nesse sentido, que os meios de comunicação também educam.
 
E educam, na grande parte das vezes, não para que sejamos nós mesmos e sejamos mais solidários uns com os outros. Muito pelo contrário: ensinam a confundir desejo com necessidade (precisaríamos, de fato, ter comprado as tantas coisas que temos?!), a repetir discursos que não são nossos, a olhar e valorizar o que está distante e debochar daquele que é próximo e parecido conosco (não é o que fazemos quando alguém aparece dando “tchauzinho” com a mão, atrás de um entrevistado, na televisão?).
 
Por que isso acontece, assim dessa maneira? Por muitos e muitos motivos, dentre eles um oportuno de se tocar aqui: porque as mídias no Brasil estão sob controle de apenas alguns grupos que, por barganhas políticas, conseguiram concessões em seu próprio benefício, para manter em funcionamento os tantos veículos de comunicação que conhecemos.
 
Porque se julgam donos dos meios, de modo inescrupuloso, fazem de tudo para garantir e aumentar o lucro que os anúncios publicitários lhes rendem. Nada do que veiculam se dissocia do incentivo ao consumo compulsivo, de idéias a mercadorias. Aliás, os conceitos que criam são os indutores da aquisição dos produtos que anunciam.
 
Para tanto, renovam equipamentos com a mesma lógica com que contratam ou despedem seus astros (até jornalistas, apresentadores de telejornais, nesse contexto são considerados e se julgam artistas!). Em outras palavras: esses grupos detentores indevidos dos meios não respeitam ninguém , pois transformam os veículos de comunicação que têm sob seu comando em verdadeiros balcões de anúncios, abertos de segunda a segunda, diuturnamente.
 
Estamos “satanizando” a mídia, atribuindo a ela poderes que vencem o nosso livre arbítrio? Não. Em hipótese alguma. Seríamos no mínimo ingênuos se ignorássemos que entre a mensagem e o que fazemos com ela existem valores culturais, familiares e religiosos, entre outros, que pesam todas as vezes que temos que tomar decisões . Seríamos estúpidos se não reconhecêssemos que apesar de tudo, os meios de comunicação nos possibilitam o que presencialmente não nos seria possível… Estamos apenas tentando evidenciar a necessidade que temos, nós educadores, de entender a pedagogia de que se valem os detentores dos veículos para alcançar suas metas e os desastres decorrentes do monopólio da comunicação para a nossa formação.
 
Porém – e sempre existe um porém, a história, felizmente é movimento por excelência. Assim, tanto o barateamento quanto o acesso às tecnologias vêm se constituindo num dos fatores que aumentam cada vez mais a chance de se modificar esse quadro. Considerando esse aspecto, podemos esclarecer agora o que estamos chamando de Educomunicação.
 
Estamos nos referindo à possibilidade de usar os mesmos meios de comunicação como verdadeiras ferramentas (igual a pá é para o pedreiro) para construir uma educação diferente dessa que criticamos. Usando computador, internet, equipamentos de rádio, de vídeo, ou outro qualquer, é possível às pessoas passarem de consumidoras de informação a produtoras de comunicação.
 
Se aumentar o número de gente contando os fatos que acontecem nos lugares que habitam, do seu jeito, estará quebrado o monopólio da mídia. No lugar do senso comum instaurado pelas grandes redes de comunicação, que buscam padronizar nossas idéias e sentimentos, haverá a abordagem dos acontecimentos sob diferentes pontos de vista. Quanto maior for o número de versões dos fatos, mais rica será a chance de pensarmos sobre o que nos chega aos nossos olhos e ouvidos.
 
Esta é a grande possibilidade da Educomunicação na escola: certamente, aqueles que desde pequenos tiverem a oportunidade de aprender a usar as tecnologias para dizer o que sentem e pensam de si, dos companheiros e da vida que levam, serão, com o tempo, mais observadores e responsáveis pelo que dizem uns aos outros.
 
Mais: se for criado um espaço na grade curricular, prevendo a veiculação regular das produções dos alunos, certamente, os meninos e meninas crescerão mais altivos e seguros (nada mais embota o conhecimento do que ter vergonha de perguntar, de aparecer em público!…).
 
Os exercícios sistemáticos de produção de comunicação possibilitarão às essas pessoas em idade de formação crescer sabedoras de que os meios podem ser usados a favor de si e dos seus companheiros.
 
Não estamos querendo dizer, entretanto, que tudo se resolve com a mera implantação de projetos chamados de Educomunicação. Não. As questões que estão embutidas na produção de comunicação são bastante complexas e sobre elas é preciso pensar mais um pouco.
 
Tomemos, por exemplo, a matéria-prima da comunicação: a palavra. Já vai longe o tempo em que se pensava o trabalho com a linguagem verbal apenas como estudo do seu código, da sua gramática. Hoje sabemos que a língua é um signo ideológico, sempre presente em nossas práticas sociais e um elemento fundamental na nossa formação como sujeitos. Trabalhar a linguagem verbal (seja ela oral ou escrita) sob esta perspectiva não é tarefa fácil: requer o entendimento de que vai muito além da fragmentação disciplinar e dos conteúdos curriculares previamente estabelecidos. A linguagem verbal perpassa todas as áreas do conhecimento, não é exclusiva do ambiente escolar e está presente em todas as nossas atividades. Mesmo assim, muitas vezes nos queixamos de que os meninos não sabem falar, não sabem escrever”.
 
Quantos de nós, educadores, lembramos da angústia que nos acometia quando um professor anunciava: “escreva com as suas palavras”? Quais eram as nossas palavras? Tantas palavras existiam nos dicionários, nos livros didáticos ou na literatura de leitura obrigatória. E também as palavras que não circulavam na escola: as palavras das revistas, dos jornais, as pronunciadas na família ou com os amigos. As palavras que dizíamos a nós mesmos, tentando nos explicar e explicar o mundo que líamos.
 
Hoje percebemos que esse sentimento de infância tinha a ver com o fato de estarmos sempre sendo solicitados a dizer-de-novo-o-que-alguém-já-havia-dito. Na verdade, nem todos nossos professores acreditavam que a gente tinha alguma coisa própria a dizer. E de onde viriam essas nossas palavras a não ser da experiência cotidiana, do espanto com o mundo, do intrigar-se consigo mesmo, do entender o que está perto e o que está longe?
 
É nesse sentido que a Educomunicação trabalha com a palavra: aquelas que são dos meninos e podem vir de qualquer lugar, mas, principalmente, dos lugares que fazem sentido para eles.
 
Reunir a prática educomunicativa à educação ambiental fica pleno de sentido, nesta perspectiva. Vamos tentar ver esta afirmação mais de perto, a partir do que sabemos.
 
1) Sabemos que para que a gente possa pensar sobre meio ambiente é preciso que esta questão esteja “construída” dentro de nós. Isto significa entender que as relações entre os seres vivos e suas ações interferem no ambiente em que vivem. Não nascemos com esta “questão” já construída dentro de nós, precisamos aprender sobre ela para poder perceber as relações entre a nossa vida e a vida do Planeta.
 
2) Sabemos que a questão ambiental tem sido construída, especialmente nas últimas quatro décadas , por um processo de partilhamento: é na intersecção e no diálogo entre a pesquisa científica, o saber popular, a atuação de organizações da sociedade, a recente inclusão do setor empresarial ecologicamente responsável, os espaços educativos e a comunicação midiática que vai se delineando a construção social da questão ambiental. Do mesmo modo que ninguém nasce com a questão ambiental já construída dentro de si, a sociedade também vai aprendendo sobre o tema e passa a perceber a relação entre a vida de todos e a vida do Planeta. Para isso temos que estar atentos ao que a humanidade já aprendeu e produziu sobre Meio Ambiente, ou seja, o saber ambiental.
 
3) Sabemos que nessa construção do saber ambiental a utilização das linguagens e tecnologias de comunicação foi decisiva para formar a opinião pública e o nosso entendimento sobre o tema . A comunicação ambiental perpassa corporações, governos, organizações não governamentais e universidades; está presente na televisão, no rádio, no jornal e nas e redes ambientais que se formam pelo mundo todo por meio da Internet.
 
4) Sabemos que a Escola é um lugar privilegiado para a construção da questão ambiental. Essa possibilidade se apresenta em duas vias: por um lado podemos discutir o saber científico e o saber popular; por outro podemos ter acesso ao que é de interesse de todo o Planeta e ao que é específico da comunidade na qual estamos inseridos.
 
5) Sabemos que podemos ser também produtores desse saber , dentro de uma realidade sobre a qual refletimos e só nós entendemos: cada escola tem uma configuração única de espaço, pessoas e relações entre estas e seu espaço. E não há nada de “misterioso” nisto – basta a gente olhar à nossa volta e perceber como somos únicos.
 
6) Sabemos que podemos e devemos tornar público o nosso entendimento da questão ambiental. E que publicar nossos saberes tem a ver com usar as linguagens da comunicação social: o rádio, o vídeo, o jornal, o panfleto, o jornal-mural, a Internet – seja qual for o alcance de cada uma dessas mídias ou nosso acesso à produção de cada uma delas.
 
E, sabendo disso (e que somos únicos e que somos produtores do saber do nosso espaço), voltamos à palavra. Tantas palavras! Dentre elas, quais são as nossas palavras sobre meio ambiente? Serão apenas aquelas já pautadas pela mídia – desde a preservação dos micos-leões-dourados e baleias até a “reciclagem” de garrafas pet? Até que ponto “compramos” as idéias e empunhamos as bandeiras que nos são apresentadas pelos jornais, as rádios, a tv? Somos capazes de perceber as nossas verdadeiras relações com nosso meio ambiente? Estamos preparados para provocar, ouvir e ler as palavras de nossos meninos a respeito disso?
 
Quando pensamos Educomunicação e Meio Ambiente temos que estar preparados para entender a complexidade do tema. Não há respostas, nem receitas. Sabemos que é preciso beber nas fontes do saber já elaborado, mergulhar no entendimento do saber que só nós seremos capaz de construir e achar os canais para divulgação deste saber. Ao olhar à sua volta, perguntar, pesquisar, duvidar e entender nossos meninos estão construindo a questão ambiental.
 
Ao escrever, fotografar, desenhar, falar, estão registrando e elaborando esse saber. E, ao tornar público esse processo (seja em um produto de rádio, vídeo ou de palavras escritas em jornal, boletim, cartaz, jornal-mural, folheto e tantas outras maneiras de se escrever a palavra), está realizada a prática educomunicativa. Acreditamos que, ao fazerem isso, podem dizer as coisas “com suas próprias palavras” – aquelas que não prescindem dos livros, dos professores, mas que são suas na medida que são frutos do que querem dizer do mundo que lêem.
 
E elas vão além das fragmentações disciplinares: não são privilégios do professor de Língua Portuguesa ou de Biologia, mas se expandem. Pensar sobre e escrever sobre meio ambiente reúne as relações entre geografia, história, economia, matemática, cultura, filosofia, biologia e tantas outras perspectivas que devem estar juntas para fazer sentido em nossa compreensão do mundo. É dessa compreensão e da nossa escrita dela que podemos produzir alguma coisa que seja de nossa autoria.
 
Neste sentido, pesquisar e entender o meio ambiente, produzir conhecimento sobre ele e divulgá-lo é a colaboração que a Educomunicação oferece a cada um de nós para que sejamos autores da nossa história. Afinal, o que é o autor se não o escritor de suas próprias palavras, o sujeito de seu discurso?
 
O que estamos propondo, em síntese, é que nós, professores, que entendemos a base que sustenta as ações de Educomunicação, podemos garantir espaços na escola para que essas questões todas sejam trabalhadas. E o que nos alegra é que esse trabalho não está por começar. Ele já começou e de forma bastante sólida através, por exemplo, das ações desenvolvidas nas duas Conferências Nacionais Infanto-juvenis pelo Meio Ambiente e no Programa de Formação Juventude e Meio Ambiente. São muitas as crianças e jovens espalhados por todos os estados brasileiros que sentiram um pouquinho do gosto bom que é exercer o direito à comunicação.
 
Assim como eles, há em cada escola meninos que querem dizer as suas palavras e são os colaboradores para a continuidade dessa proposta. Vamos dar voz a essas palavras?
 
Referências Bibliográficas

FREIRE, Paulo: Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1970.

SOARES, Ismar de Oliveira: “Comunicação/Educação: a emergência de um novo campo e o perfil de seus profissionais.”in Contato – Revista Brasileira de Comunicação, Arte e Educação nº 2. Brasília: Senado Federal, Gabinete do Senador Artur da Távola, 1999, p. 19-74.

LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. São Paulo:Cortez, 2001

RAMOS, Luis Fernando Angerami. Meio ambiente e meios de comunicação. SP, Annablume / Fapesp, 1998.

Referências sitiográficas Programa Juventude e Meio Ambiente:

www.conferenciainfantojuvenil.com.br/biblioteca/Programa_Juventude.pdf I Conferência IJMA: www.conferenciainfantojuvenil.com.br/index.php?pagina=coletivo_jovem.php II CNIJMA www.conferenciainfantojuvenil.com.br www.portalgens.com.br/atibaia: site que documenta o processo de implantação de um Programa de Educomunicação como forma de fortalecer o Programa de Educação Ambiental para todas as escolas públicas do Município de Atibaia – SP.
 
 
Publicado em
Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em educação ambiental na escola/
 
V 216      Coordenação: Soraia Silva de Mello, Raquel Trajber. – Brasília:
               Ministério da Educação, Coordenação Geral de Educação Ambiental: Ministério do Meio Ambiente,
               Departamento de Educação Ambiental: UNESCO, 2007.
               248 páginas. : il.; 23X26 com
               Vários colaboradores.
                ISBN 978-85-60731-01-5
1. Educação ambiental – Brasil 2. Educação básica – Brasil.

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