Não é de hoje que a Educação Ambiental vem sendo proposta como campo essencial para uma educação global, orientada para o bem-estar da comunidade humana e compreendida como uma grande área do conhecimento que abrange conceitos multidisciplinares.

Na década de 60, em decorrência das profundas transformações que o mundo vinha sofrendo provocadas pelo crescente desenvolvimento industrial e tecnológico da sociedade, impulsionado, inclusive, pela Guerra Fria e por suas consequências como corrida armamentista e nuclear, a esfera ambiental começa a se ressentir de uma degradação considerável que se estendeu e se amplificou ao longo dos anos, repercutindo sobremaneira na qualidade de vida do homem e de todos os demais seres vivos. Em outras palavras, a humanidade tem tido dificuldades em encontrar meios efetivos de impedir essa degradação na medida em que não tem dado conta de acompanhar os efeitos de um acelerado desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico.

Assim, apesar da preocupação de ambientalistas e da ONU em alertar a comunidade internacional “sobre a necessidade de uma abordagem globalizante para a busca de soluções contra o agravamento dos problemas ambientais” (DIAS, 1991:3), o que temos constatado é, ainda, uma grande limitação das propostas que buscam o comprometimento dos dirigentes dos países, como também dos habitantes do planeta a se engajar com a preservação ambiental.

Em contrapartida, grupos de cidadãos organizados em diversos movimentos – ambientalistas, pacifistas, associações de habitantes, Organizações Não Governamentais, entre outros – procuram envolver cada vez mais na problemática sócio-ambiental outros cidadãos. Esses movimentos ao buscarem questionar o cidadão comum, as autoridades e os meios de comunicação acerca da responsabilidade do ser humano para com os direitos do ambiente, impulsionam a reflexão sobre o alcance da intervenção humana na Terra e inauguram uma nova concepção de cidadania que nos vincula à complexa teia da vida (SANTOS, 2005).

A participação ativa e responsável de cada indivíduo e da coletividade para a resolução dos problemas concretos do meio ambiente coloca-se, então, como um dos pressupostos fundamentais da Educação Ambiental. Encontros com a UNESCO na década de 70 já pronunciavam uma visão de Educação Ambiental como “processo de reconhecimento de valores e esclarecimento de conceitos no sentido de desenvolver habilidades e atitudes necessárias para compreender a inter-relação entre homem, sua cultura e seu meio físico” (GUIMARÃES 1995, 7:9).

Essa década, inclusive, é um marco político na medida em que o ambiente passa a ser reconhecido em termos legais, exigindo de todos os habitantes do planeta o exercício de uma cidadania que incorpora uma consciência ética na qual a relação natureza/sociedade reconhece o valor intrínseco de todas as formas de vida, em acordo à perspectiva da “ecologia profunda” . SANTOS (2005) esclarece que o movimento ambientalista pode ser dividido, de modo geral, em duas tendências com base na maneira pela qual concebe a ecologia e a ética socioambiental: a primeira tendência vincula-se aos adeptos da ecologia superficial que valorizam a natureza, na medida em que ela serve aos objetivos humanos  e a segunda aos adeptos da ecologia profunda que reconhecem todas as formas de vida a partir de seu valor intrínseco e não utilitário.

A Conferência Internacional para o Meio Ambiente Humano promovida pela ONU em 1972, representa o momento em que a Educação Ambiental entra para a história do movimento ambientalista mundial, passando a ser considerada como campo de ação pedagógica.

Vinte anos mais tarde, na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro, a Educação Ambiental foi assim apresentada: ” A Educação Ambiental se caracteriza por incorporar as dimensões socio-econômica, política, cultural e histórica, não podendo basear-se em pautas rígidas e de aplicação universal, devendo considerar as condições e estágio de cada país, região e comunidade, sob uma perspectiva histórica. Assim, a Educação Ambiental deve permitir o entendimento  acerca da complexidade do meio ambiente e interpretar a interdependência entre os diversos elementos que compõem o ambiente, com vistas a utilizar racionalmente os recursos do meio na satisfação material e espiritual da sociedade no presente e no futuro” (NOAL; REIGOTA & BARCELOS, 1998: 15)

Na perspectiva colocada por essa Conferência, a Educação Ambiental pressupõe um processo permanente de conscientização dos indivíduos e das comunidades num movimento de mão dupla em que a aquisição de conhecimentos, valores e habilidades se traduzam em ações no sentido de planejar e implementar ações individuais e/ou coletivas para a resolução de problemas.

Em termos das finalidades da Educação Ambiental, ainda naquela oportunidade, foram definidas as seguintes metas:

• Ajudar a fazer compreender, claramente, a existência e a importância da interdependência econômica, social, política e ecológica, nas zonas urbanas e rurais;
• Proporcionar a todas as pessoas a possibilidade de adquirir os conhecimentos, o sentido dos valores, as habilidades, o interesse ativo e as atitudes necessárias para proteger e melhorar o ambiente;
• Induzir novas formas de conduta a respeito do ambiente nos indivíduos, nos grupos sociais e na sociedade em seu conjunto.

No Brasil, a Constituição de 1988, capítulo VI, do Meio Ambiente, art. 225, parágrafo 1º, inciso VI, ao atribuir ao Poder Público a promoção da Educação Ambiental em todos os níveis de ensino, bem como a conscientização da sociedade para a preservação do ambiente, compromete-se com uma tarefa que se apresenta ao mesmo tempo urgente e complexa. Essa tarefa é, inclusive, reafirmada pela Política Nacional de Educação Ambiental, sancionada pela lei federal 9.975/99, que se refere à Educação Ambiental como componente essencial e permanente da educação nacional em todas suas modalidades e níveis de ensino, abrangendo processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente (artigos 1º e 2º).

Em síntese, a realização das metas e finalidades preconizadas pela Educação Ambiental, exige, certamente, uma série de ações simultâneas entre as quais o desenvolvimento de conhecimentos, atitudes e habilidades necessárias à preservação e melhoria da qualidade do ambiente. Desse ponto de vista, a Educação Ambiental sustenta-se tanto pela produção de conhecimento científico em várias áreas do conhecimento como pela consciência social e conduta responsável do cidadão que reconhece e preserva os direitos do ambiente.

Quanto à formação do cidadão, desde a Conferência de Tbilisi ( Conferência que ocorreu na Georgia ex-Rússia e foi organizada pela UNESCO em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente)  em 1977, já se previa como princípio básico da Educação Ambiental a utilização de “diversos ambientes educativos e uma ampla gama de métodos para comunicar e adquirir conhecimentos sobre meio ambiente, acentuando devidamente as atividades práticas e as experiências pessoais” (DIAS, 1991:6). Assim, uma cidadania que incorpora o paradigma ambiental prescinde de todos os meios educativos pelos quais pode se tornar possível desenvolver junto aos cidadãos o senso crítico e as habilidades necessárias para planejar e implementar ações no enfrentamento de problemas sócio-ambientais.

Fonte: ROSALEM, Bruna & BAROLLI, Elizabeth. A ambientalização do currículo do curso de pedagogia da Faculdade de Educação da Unicamp. Projeto de Iniciação Científica. FAPESP/2007. Campinas-SP.

Bruna Rosalem