fóssil do carangueijo do per�odo jurássico - fonte geositesCaranguejo-ferradura, comum na costa dos EUA, está sumindo por pesca indiscriminada.

Animal é usado como isca; sua abundância é crucial para cadeia alimentar dos oceanos.

Os caranguejos-ferradura podem ter uma aparência alienígena ou pré-histórica, lembrando o aspirador de pó da Wilma Flintstone, mas para os estudantes de sexta série da Escola Columbus, na cidade vizinha de Bridgeport, a coisa mais ultrajante nessas criaturas de capacetes cor de bronze se arrastando de forma desajeitada pela praia não era sua aparência, mas seu tamanho — ou melhor, seus tamanhos. 

Um garoto apontou para um casal de caranguejos-ferradura, um espécime relativamente compacto, com cerca de 15 centímetros, pendurado na extremidade traseira de um companheiro bem maior. Um caranguejo criança pegando uma carona em sua mãe? Não, explicou Jennifer H. Mattei, chefe do departamento de biologia na Universidade Sacred Heart em Fairfield, que guiava a expedição. Os dois eram adultos, um macho e uma fêmea, e a fêmea era o brutamontes da frente.

Entre os caranguejos-ferradura, explicou Mattei, as fêmeas adultas são uns bons 25% ou 30% maiores que seus parceiros, um fato que as garotas receberam com assobios de triunfo, os garotos com indignação. Por que as fêmeas são maiores?, perguntou um garoto. Deveria ser o contrário!

Da forma como aconteceu, a resposta a essa questão estava fortemente ligada à razão pela qual os estudantes da classe de Cheryl Crevier haviam se aventurado em visitar, numa perfeita manhã de junho, as praias de Long Island Sound. Com pranchetas nas mãos e fitas métricas ao redor de seus pescoços, as 22 crianças estavam lá para ajudar a capturar, medir e etiquetar o máximo de espécimes que pudessem encontrar do caranguejo-ferradura americano, ou Limulus polyphemus, uma das espécies mais antigas e tenazes da Terra. Fósseis encontrados neste ano em Manitoba revelam que a arquitetura do animal não mudou quase nada em 445 milhões de anos.

Carangueijo ferraduraO projeto dos estudantes é parte de um esforço maior agora no caminho entre o Maine e a Flórida, conforme pesquisadores e voluntários correm para aproveitar a temporada de procriação na primavera, quando os caranguejos se arrastam para fora de suas camas nos recifes continentais e se direcionam à praia para procriar, e dessa forma podem ser contados. Especialistas estão desesperados para saber se suas suspeitas estão corretas — suspeitas de que, como resultado de terem sido colhidos em massa para uso como iscas de pesca, a população de caranguejos-ferradura estejam começando a diminuir drasticamente.

 

 Desastre anunciado

A perda do caranguejo-ferradura seria trágica, dizem os pesquisadores, não porque as criaturas sejam fascinantes e tenham antecedido os dinossauros em 200 milhões de anos, mas também pela quantidade de formas de vida que dependem deles. Suas procriações anuais atraem centenas de espécies de pássaros migratórios, peixes predatórios, répteis, anfíbios e vários outros canais alimentares ávidos para se alimentar dos recém-depositados ovos de Limulus. “Ovos de caranguejos-ferradura são como filé mignon por aqui”, diz Mattei. “Eles são um item muito popular do menu.”

 Carangueijo ferradura - femea de barriga para baixo
Uma fêmea da espécie de barriga para baixo (Foto: Reprodução)

Um item abundante, também. “Uma única fêmea de caranguejo-ferradura pode botar 80 mil ovos por ano, 4 milhões em uma vida”, diz John T. Tanacredi, um professor de ciências terrestres e marítimas do Dowling College em Oakdale.

Nós também temos ligações com esses antigos animais. De seu sangue nós extraímos uma proteína que é primorosamente sensível a toxinas de bactérias e usada para testar instrumentos cirúrgicos e drogas intravenosas para assegurar sua segurança. O sistema visual relativamente simples do caranguejo-ferradura provou ser um sistema-modelo ideal para decodificar os fundamentos da visão.

“Somente com o olho do caranguejo-ferradura é possível prever cada fibra nervosa na retina que enviará a visão para o cérebro”, diz Robert B. Barlow, um professor de oftalmologia da Universidade Estadual de New York.

Animação

Os estudantes da Escola de Columbus, depois de terem se assegurado de que o caranguejo era inofensivo e superado seu temor de segurar algo que, quando virado de ponta-cabeça, se parece muito com uma versão maior de escorpiões e aranhas — dos quais o caranguejo-ferradura é muito mais próximo do que de caranguejos normais —, começaram sua tarefa com grande animação.

Eles levantaram os caranguejos da água cuidadosamente e os seguraram, conforme as instruções, como tigelas de sopa. Eles fizeram pequenos furos na dura e quitinosa casca com ferramentas especiais desenhadas por Mattei e seus colegas Mark Beekey e Barbara Pierce. E antes que um caranguejo pudesse deixar escapar mais do que uma gota de seu distinto sangue azul — a cor é resultado do uso do cobre como transportador de oxigênio ao invés do ferro, como nós —, eles inseriam a etiqueta branca numerada.

Enquanto trabalhavam, os estudantes aprendiam sobre o caranguejo-ferradura, como ele usa sua cauda parecida com um furador de gelo para direcionar-se na água e endireitar-se caso seja virado na areia, por que o caranguejo é um generalista disposto a se alimentar de plâncton, pedaços de peixes e vermes, e como a falta de mandíbulas para mastigação o leva a triturar sua comida com a ajuda das cerdas em suas pernas e uma moela interna que contém pedaços de areia e cascalho.

Mattei explica que, no ambiente sempre mutável das marés, os caranguejos compactos são moradias desejadas. “Mais de 20 espécies de organismos podem ser achadas vivendo em suas cascas”, diz ela, incluindo crustáceos, mexilhões, esponjas, minhocas e sanguessugas, uma soma de bagagem que, se não ajuda os caranguejos, geralmente também não os machuca.

Adulto aos nove

Ela descreveu o ciclo de vida do caranguejo, o modo como alguns animais trocam de casca 17 vezes antes de atingir o tamanho adulto, com aproximadamente nove anos de idade. Os machos emergem da última troca com um distinto par de “luvas de boxe” em suas garras da frente, que eles usam para a importantíssima tarefa de segurar-se à traseira de uma fêmea por meses de cada vez. Enquanto juntos, o casal não faz sexo. Mas sempre que uma fêmea põe uma quantidade de ovos, o macho está bem posicionado para fertilizá-los soltando uma pluma de esperma.

“As fêmeas são maiores apenas pela necessidade física de carregar todos aqueles ovos”, diz Mattei. O esperma, pelo contrário, é um fio delgado, e o combate macho-macho é raro. “É de quem chegar lá primeiro”, diz Mattei, uma estratégia reprodutiva que pode, na verdade, recompensar a pequena estatura.

Infelizmente, algumas vezes o primeiro macho a chegar é um grande caranguejo de sangue-quente com polegares opositores. Nos últimos anos, o mercado asiático para enguias e frutos do mar levantou vôo, e parece que as fêmeas prenhas de caranguejos-ferradura são a melhor isca. Nem mesmo o vigoroso Limulus pode durar se todos os seus ovos acabarem em uma única cesta — ou melhor, num barco de pesca. 

Fonte: Natalie Angier Do ‘New York Times’ – através do Portal G1 

Caco araújo.

Anúncios