É indispensável relatar as experiências de profissionais envolvidos e preocupados com o meio ambiente, sobretudo quando o assunto é a Educação Ambiental, a base de todo conhecimento e, talvez, a “luz no fim do túnel” para a preservação.
Pensando nisso, postamos um relato interessante, encaminhada para a TV Ecológica pelo Prof. Glauber Costa, na Zona Rural de Vitória da Conquista, na Bahia, como segue:
PROJETO SERTÃO – ESPAÇO E MEIO AMBIENTE

O Projeto “Sertão – Espaço e meio ambiente”, surgiu da idéia de se resgatar valores na relação que os alunos estabeleciam com sua comunidade, seu espaço de vivência, de forma que eles pudessem compreender a relação ser humano e espaço, compreender algumas categorias de estudo da Geografia, e ter um resgate de valores a partir da Educação Ambiental.
Pela seca castigar o sertão, pela desvalorização do espaço rural pelas políticas públicas, pela supervalorização do urbano,
e pala relação predatória com o espaço que viviam, analisei os fatos e propus a reflexão sobre essa relação homem e espaço, como objetivo da Geografia em especial a relação camponês e meio rural, e percebi pelos meus alunos que eles tinham aversão ao espaço que viviam, sem perceber as possibilidades que o ambiente poderia oferecer a eles. A baixa auto estima dos alunos quando o assunto era o local em que viviam me possibilitou buscar formas de faze-los ver o sertão sob um novo olhar, aí entra a Educação Ambiental como o resgate da cidadania, da importância da natureza, da valorização da Caatinga como bioma brasileiro, e na melhoria da consciência ambiental dos alunos.
Local
A escola que o projeto foi desenvolvido é na Zona Rural de Vitória da Conquista, é um distrito chamado Bate Pé, está situada no semi árido, a cidade de Vitória da Conquista está em
uma faixa de transição da Mata Atlântica para a Caatinga… e Bate Pé fica na região da Caatinga, fica a 36 km do centro urbano de Vitória da Conquista, é uma região de difícil acesso, por estrada de chão, lá é onde mora o cantor conquistense conhecido internacionalmente, Elomar Figueira, que foi um dos personagens que utilizei para resgatar nos alunos a auto estima, mostrando que alguém dali se destacou globalmente “cantando sua tribo”. A escola que trabalhei se chama Centro Educacional Eurípedes Peri Rosa, é uma escola municipal, com cerca de 900 alunos nos três turnos, o projeto foi desenvolvido com a 8ª série, do turno vespertino e noturno, totalizando aproximadamente cerca de 50 alunos.
A escola está situada nesse distrito que vive do comércio fraco e da agricultura de
subsistência, ela é escola de ensino fundamental mais próxima, se não existisse os alunos teriam que viajar cerca de uma hora para escola mais próxima.
A escola tem vários problemas, falta de material pedagógico de toda ordem, falta merenda às vezes durante o ano, falta água, não tem recursos, e ela é o que centraliza as pessoas durante a semana no distrito, ou seja é onde tudo acontece, nos finais de semana lá acontece uma feira de hortifrutigranjeiros que agrega todos da região, e durante a semana é a escola a centralizadora.
Transdisciplinariedade
Mas foi justamente a falta de todos esses recursos que me moveu desenvolver o trabalho, de EA lá, comecei de forma despretensiosa e ganhou proporções incríveis.
Ao entrar no assunto globalização, realidade global x local, meio ambiente e cidadão global, fui me apaixonando pela capacidade dos alunos, que são muitas vezes subestimados pelas condições em que vivem, daí propus a eles de fazermos uma análise ambiental do espaço que moravam, compreendendo algumas categorias geográficas, como espaço, lugar e paisagem e fomos fazer a aula de campo em Bate Pé, que descrevi no projeto, e na aula de Educação Artística começamos o trabalho com uma exposição sobre o cantor Elomar Figueira, depois a relação da fotografia com a paisagem, e por fim para obter um produto trabalhamos a reciclagem de papel… em Artes, a partir da arte japonesa do origami, eles conheceram a um pouco da Geografia e Historia do Japão, e a historia do Tzuru.
Em Geografia, fiz uma aula de campo para conhecerem o espaço em que viviam
sob um novo olhar, o olhar da Geografia e da EA, a aula de campo, foi durante um dia, onde andamos pelo vilarejo, e eu ia expondo as potencialidades da Caatinga, ia mostrando a beleza do espaço, analisando a paisagem, e ao mesmo tempo mostrando os efeitos da relação homem – espaço.
Da aula de campo em Geografia propus a eles elaborarem relatórios de campo que visassem descrição da paisagem e propusessem ações para diminuição da ação do homem a natureza, em Bate Pé.
Aula de Campo
Metodologia e descrição do processo
O projeto iniciou despropositalmente, nas aulas de Geografia com os alunos iniciamos as discussões sobre temas, tais como:
- Meio ambiente
- Educação ambiental sua importância e benefícios
- Desenvolvimento Sustentável em países subdesenvolvidos
- Globalização e problemas ambientais globais e locais
- Ralação homem e espaço
- Espaço rural políticas públicas e o papel do Estado
- Cidadania
- Preservação, conservação e meio ambiente
- Realidade global com implicações locais
Após o embasamento teórico, a partir de aula expositiva dialogada durante três semanas, a partir das discussões dos alunos, fomos avaliando o que foi ensinado e ao mesmo tempo coletando informações sobre a comunidade.
Posteriormente, tivemos uma aula de campo dentro da comunidade, durante toda a
tarde, em grupos caminhando pelo locais que se destacavam na paisagem em que o homem não estabelecia uma ação positiva com relação ao espaço. Neste momento os próprios alunos iam identificando os problemas que a comunidade enfrentava e como os moradores se portavam diante do ambiente.
O que havia sido discutido em sala de aula agora vinha a tona a partir das discussões dos alunos.
Foram visitados os seguintes locais da comunidade:
Lixão da localidade
No aterro sanitário foi analisado o descarte do lixo, a forma e o tipo de lixo, e foram feitas análises interessantes do tipo:
- Porcos que depois seriam consumidos pela comunidade, se alimentavam do lixo que provavelmente, os contaminariam.
- O excesso de urubus e do mal cheiro no local
- A quantidade de sacolas plásticas que voavam do aterro e iam em direção ao pasto da fazenda ao lado, e as vacas e cabras comiam pensando que era alimento e morriam posteriormente sufocadas (relatos dos alunos)
- O local indevido para a construção do Lixão, pois está no fundo da escola e em uma parte alta, que com nos meses de novembro a Março pela concentração de chuvas na Caatinga, escorre todo o lixo para o fundo da escola, e leva contaminação para o solo do campo de futebol que está ao lado da escola
- A presença de um criatório de porcos próximo ao lixão e o plantio de palmas, plantas xerófitas que é utilizada na alimentação humana e dos rebanhos no período de estiagem
- A presença de restos de animais mortos e em decomposição dentro do lixão e a presença de crianças próximas ao local



Paisagem local
Durante o percurso foi feito análise da paisagem e observada a presença de plantas típicas da região que sobrevivem à seca e destacada a beleza dessas espécies além da fauna, e a importância delas para a cultura e ambiente local, destacou-se o mandacaru, a palma, o umbuzeiro, a mamona e da fauna o tatu, as espécies de pássaros e répteis.
Além das observações os alunos viram o que era discutido nas aulas de Geografia, como: Clima, solo, hidrografia, vegetação, fauna e relação homem e espaço.
Riacho do Ouro
Foi visitado um rio durante o trajeto, antes os alunos já tinham investigado com
seus avós, pais e moradores locais se aquele rio um dia teve água, e tentar descobrir porque hoje estava seco, trabalhando dessa forma a cultura, a história e o resgate desses elementos, ao chegar no rio eles descreveram e contaram um pouco da história e chegaram à conclusão que o rio secou pela retirada da mata ciliar, pela falta de preservação da nascente e pelo lixo jogado no rio, e o clima semi-árido encarregou de intensificar a ação humana.
Urbanização da Zona rural
Neste momento, a proposta era analisar a urbanização da zona rural e como isso
acontecia, andamos por dentro do vilarejo analisando os tipos de construções, os modelos de moradia inspirados na zona urbana, o comércio, os tranportes, as redes de fluxos e fixos, a população e seu comportamento e foram feitas observações interessantes:
A falta de saneamento básico ( falta de rede de esgoto e falta da coleta de lixo).
O abandono das casas por parte dos moradores que foram em busca de outros empregos nos grandes centros.
O cuidado dos moradores em manterem a entrada da do vilarejo limpa mas os arredores não tem esse mesmo cuidado, refletindo um costume. local de sempre deixar a entrada das casas limpas, e o quintal sujo.
A desigualdade social, percebida pela faixada de algumas moradias.
A construção de um terminal rodoviário abandonado e subutilizado pelo poder público, em que foi feito um resgate histórico da SUDENE e seu papel nas década de 80 nas comunidades da Caatinga.
E houve uma pausa para o lanche que foi o momento de avaliação em que os alunos se organizaram sozinhos para o descarte do lixo gerado pelo momento, e pela divisão igual entre todos.
Foi analisada a produção, a geração de renda e comércio local, a agricultura enfim a economia da comunidade.
Avaliação
Envolvidos nesse clima eles se superaram nos relatórios, a partir daí com os
relatórios e as fotografias do local, fizemos um vídeo, com as falas deles, e iniciamos a montagem de um stand com o tema Bate Pé meio rural e espaço ambiental, no stand teríamos, o vídeo, os relatórios, os origamis, a exposição das fotografias, e a ação dos alunos junto a comunidade conscientizando, isso tudo aconteceria durante a feira de saúde promovida por mim e a professora de Educação Física, só que três semanas antes, a diretora da escola foi exonerada, e ai eu tive que sair porque eu era contratado e a vaga real era dela, daí propus aos alunos outra ação que foi fazer os origamis de papel velho e distribuí-los em suas casas, conscientizando os pais deles, passamos o vídeo na escola para todos verem e refletirem, e pedi que eles fizessem um “trato ambiental” e todos escreveram as ações que mudariam após todo o processo, então foi visível quanto a sala deles andava mais limpa, muito passaram a defender mais o espaço rural, pois com as discussões em sala eles entenderam o valor do local que viviam, passaram a ter atitudes simples como não jogar papel no chão, se preocupar mais com o outro, alunos mais tímidos se destacaram durante as discussões, foi uma sensação única vê-los amadurecer e perceberem como cidadãos globais preocupados em valorizar o local que moravam.
A avaliação foi processual, durante o projeto pelas falas deles, percebi o quanto amadureceram, e mudaram a visão que tinham do local em que viviam, se preocupando ambientalmente com o meio que moravam.
O que serviu como avaliação para mim foi essa mudança de atitude, nessa ação, eu percebi os alunos lideres dentro da sala, percebi a vontade de destacar-se dos tímidos, a mudança de comportamento deles, e o poder de mobilização em dois momentos, no primeiro foi com a montagem da aula de campo e dos relatórios e o outro foi com a coleta de assinaturas para um abaixo assinado que pedia para que a situação que acontecia na escola de exoneração da diretora, não acontecesse, mas infelizmente o poder público não compreendeu isso.
O que você deve perguntar é onde entra a seca nessa história, bom os alunos estavam cansados já discutirem sobre isso, eles já sabiam tudo, então na aula de campo fomos ver as ações do homem e o que promovia a seca e dessa forma eles repensaram sua ação com o meio ambiente, mas o que eu queria era que eles pudessem propor soluções viáveis, pequenas ações, que conseqüentemente resolveria a seca na região.
Depois de tudo isso os alunos adquiriram a capacidade de liderança, de mobilização, de comunicarem de forma coerente, e principalmente a relação e valorização do espaço em que viviam melhorou muito.
Objetivos
Iniciar um processo continuo de formação dos alunos da 8ª série;
Capacitar teoricamente os alunos com temas voltados para a preservação do Meio Ambiente para que depois eles pudessem compartilhar esses conhecimentos com a Comunidade;
Fazer o aluno compreender melhor o espaço em que vive e valoriza-lo em suas questões ambientais , sociais e culturais;
Reconhecer os problemas ambientais enfrentados pela comunidade de Bate Pé em que a escola está inserida;
Propor soluções viáveis para a resolução ou mitigação dos impactos ambientais gerados nessa comunidade;
Envolver os alunos e comunidade em um processo de responsabilidade por suas ações quanto a preservação do ambiente em que vivem;
Fomentar na escola as discussões sobre meio ambiente e preservação;
Comparar os problemas locais com os problemas globais e como eles estão envolvidos de forma direta e indireta, usando a Geografia como promotora dessa ação;
Observar a paisagem antropomorfizada e descreve-la;
Avaliar e compreender a extensão e o alcance do projeto na comunidade e alunos.
Todas essas fotos você pode ver no seguinte endereço: http://www.flickr.com/photos/glauberbarros/sets/
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PROF. GLAUBER BARROS A. COSTA
Possui graduação em Licenciatura Plena em Geografia pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2004). É especialista em Planejamento de atividades ecoturísticas e de educação ambiental em áreas naturais e escolas. Criador de vários projetos educacionais com temas voltados para a Educação ambiental e educação inclusiva. Tem experiência na área de Geografia, com ênfase em Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: geografia e educação. Objetiva compartilhar seus conhecimentos e aprender através da relação aluno professor, realizado uma educação, que contribua para a formação do ser humano, a partir da consciência crítica e transformadora.
Contato: (77)8805-3956 e (77)3421-3986
http://lattes.cnpq.br/7716686318910908
Caco Araújo







25/04/2008 às 1:48
Ficou ótima a matéria Caco muito obrigado pela oportunidade de divulgação do meu trabalho!
Sucesso sempre!
14/10/2008 às 6:01
Hi,
Adorei bastante o projecto,
Gostaria que comppartihlasemos mais conhecimentos sobre educacao ambiental no contexto mais pratico